TJ-PR aplica multa por má-fé a advogado que citou precedente inexistente supostamente gerado por IA

Data:

litigância de má-fé
Créditos: seb_ra | iStock

A 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) aplicou multa por litigância de má-fé a um advogado que atuava em causa própria após constatar a citação de um precedente inexistente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), aparentemente produzido por ferramenta de inteligência artificial.

Além da multa correspondente a 2% sobre o valor atribuído à causa — estimada em R$ 1 bilhão — o colegiado determinou o envio de ofício à Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná (OAB-PR) para apuração de eventual infração disciplinar.

Ação questionava publicidade de plataformas digitais

O advogado Giovanni Antonio de Luca ajuizou ação contra as empresas iFood, Rappi Brasil e Uber Brasil, alegando supostas práticas de publicidade enganosa relacionadas às campanhas promocionais divulgadas nos aplicativos.

Segundo o autor, anúncios como “30% de desconto” e “entrega grátis” induziriam o consumidor a acreditar que os benefícios seriam concedidos pelas plataformas, quando, na realidade, os descontos e os custos da entrega seriam suportados exclusivamente pelos restaurantes parceiros.

O advogado sustentou que as plataformas continuariam cobrando comissões sobre o valor integral dos pedidos, inclusive sobre a parcela correspondente aos descontos, o que, em sua avaliação, caracterizaria publicidade enganosa por omissão, enriquecimento sem causa e desequilíbrio contratual.

Na ação, requereu o pagamento de R$ 100 milhões por danos morais coletivos, a constituição de um fundo de R$ 500 milhões para reparação coletiva e R$ 1 milhão a título de danos morais individuais. O valor da causa foi fixado em R$ 1 bilhão.

Recurso foi considerado incabível

Em primeiro grau, o magistrado determinou que o advogado comprovasse sua alegada hipossuficiência financeira para obtenção da gratuidade da justiça, além de adequar o valor atribuído à causa.

Contra essa decisão, o autor interpôs agravo de instrumento, que foi rejeitado pelo relator, desembargador Luis Sérgio Swiech, sob o fundamento de que a decisão recorrida não possuía conteúdo decisório apto a justificar a interposição do recurso.

Posteriormente, o advogado apresentou agravo interno.

Jurisprudência inexistente

Durante o julgamento do agravo interno, o iFood alegou que o recorrente havia litigado de má-fé ao citar um precedente inexistente do STJ, supostamente gerado por inteligência artificial.

Ao examinar a petição, o relator verificou que o acórdão indicado pelo advogado não constava do repositório oficial do Superior Tribunal de Justiça.

Segundo o desembargador, a inexistência do precedente levou à conclusão, em análise preliminar, de que a referência jurisprudencial teria sido produzida por ferramenta de inteligência artificial sem a devida verificação de autenticidade.

Antes da aplicação da penalidade, foi assegurado ao advogado o direito de apresentar esclarecimentos.

Dever de conferir informações permanece com o advogado

Em sua manifestação, o advogado argumentou que a ausência de localização do julgado não comprovaria sua inexistência e sustentou que eventual equívoco seria mero erro material, incapaz de caracterizar litigância de má-fé.

O relator, contudo, entendeu que a justificativa não afastava a responsabilidade processual.

Segundo o magistrado, a utilização de sistemas de inteligência artificial para auxiliar na elaboração de peças jurídicas não exime o profissional do dever de verificar rigorosamente a autenticidade das informações levadas aos autos.

Para o desembargador, a citação de precedente inexistente compromete a regularidade do debate processual e pode induzir o órgão julgador a erro, justificando a aplicação da multa por litigância de má-fé.

Além da sanção processual, o colegiado determinou o envio de ofício à OAB-PR para apuração de eventual responsabilidade disciplinar do advogado.

O espaço para manifestação do profissional permanece aberto.

Ag 0108267-74.2025.8.16.0000

Processo 0025387-22.2025.8.16.0001.

(Com informações do Juri News)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Ministro do STJ suspende julgamento de desapropriação após crítica de advogada a caso considerado “absurdo”

O ministro Afrânio Vilela, do STJ, pediu vista de processo sobre indenização por desapropriação após uma advogada classificar o caso como “absurdo”. A controvérsia envolve a ampliação da área considerada para o cálculo indenizatório, e o julgamento foi suspenso para que o magistrado reexamine os fundamentos de sua posição.

EUA anunciam transmissão ao vivo da execução de militar condenado por ataque em base do Texas

O Pentágono anunciou que a execução de Nidal Malik Hasan, condenado pelo assassinato de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, está prevista para 3 de dezembro de 2026 e poderá ser transmitida ao vivo. O procedimento deverá ocorrer por fuzilamento, mas as autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre a transmissão. O anúncio reacendeu o debate sobre a pena de morte e a publicidade das execuções nos Estados Unidos

TJDFT mantém condenação de concessionária de cemitério por furto de motocicleta

O TJDFT manteve a condenação de uma concessionária de cemitérios pelo furto de uma motocicleta em uma de suas unidades. A 7ª Turma Cível identificou falhas no dever de vigilância, apesar da previsão contratual de segurança armada 24 horas por dia. O tribunal entendeu que a terceirização do serviço não afasta a responsabilidade da concessionária. A indenização de R$ 16.174,00 por danos materiais foi mantida, com correção monetária e juros. A decisão foi unânime.

Justiça concede liminar e permite funcionamento temporário de casa de aposta

Justiça Federal em São Paulo concede liminar que permite à Stake Brazil continuar operando até 25 de outubro de 2026. A decisão considera a necessidade de observar um prazo de transição antes da suspensão das atividades.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo