Parcialidade: STJ anula audiência por atuação indevida de juíza

Data:

audiências públicas
Créditos: Den Kuvaiev | iStock

A 6ª turma do Superior Tribunal de Justiça anulou uma audiência de instrução por entender que a juíza de primeiro grau adotou postura excessivamente ativa durante o interrogatório do réu e a oitiva das testemunhas. Por unanimidade, o colegiado determinou a renovação do ato, com base no art. 212 do Código de Processo Penal, ao reconhecer violação ao sistema acusatório e comprometimento da imparcialidade judicial.

Segundo o STJ, ao substituir as partes na formulação de perguntas e conduzir respostas, a magistrada extrapolou seu papel constitucional, prejudicando o contraditório e a paridade de armas.

O caso

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina havia condenado um vereador de São Bento do Sul pelos crimes de concussão, corrupção passiva e coação no curso do processo. A defesa alegava incompetência da Justiça comum — sustentando que os valores seriam destinados ao diretório partidário — e apontava parcialidade da juíza que conduziu a instrução. As teses foram rejeitadas pelo TJ/SC.

No recurso ao STJ, a defesa reiterou os argumentos e destacou que a magistrada teria assumido posição protagonista na produção da prova oral, interferindo nos depoimentos e conduzindo respostas.

Violação ao sistema acusatório

Relator do caso, o ministro Sebastião Reis Júnior explicou que a reforma de 2008 consolidou o modelo de inquirição direta, cabendo às partes a formulação inicial das perguntas, enquanto o juiz deve atuar apenas de maneira complementar, para esclarecer pontos obscuros.

Ele observou que, na audiência analisada, a magistrada ultrapassou esses limites, assumindo uma postura investigativa e, por vezes, acusatória. Segundo o ministro, o fato comprometeu a imparcialidade do julgamento, já que as provas que embasaram a condenação foram colhidas em ambiente processual desequilibrado.

Reis Júnior destacou que a conduta judicial não se restringiu a inverter ordem de perguntas, mas representou “quebra estrutural do devido processo legal”, substituindo o Ministério Público na função acusatória.

Determinação

Diante das irregularidades, a 6ª turma declarou nulos os atos praticados a partir da audiência de instrução, ordenando o desentranhamento das provas e a realização de nova audiência, com rigorosa observância do art. 212 do CPP.

Processo: REsp 2.214.638

(Com informações do Migalhas)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

1 COMENTÁRIO

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

TJ-PI apresenta novas ferramentas de Inteligência Artificial para modernizar serviços do Judiciário

O Tribunal de Justiça do Piauí apresentou novas ferramentas de Inteligência Artificial desenvolvidas pelo Opala Lab para auxiliar magistrados e servidores, otimizar processos e modernizar os serviços judiciais. As soluções incluem sistemas de transcrição de audiências, análise processual e organização de bases de conhecimento, com foco em segurança, autonomia tecnológica e eficiência.

TJ-SP analisará pedido para excluir filiação materna do registro civil

O TJ-SP deverá analisar recurso de uma mulher que busca excluir a filiação materna de sua certidão de nascimento após relatar ter sido vítima de graves abusos durante a infância. Embora a sentença de primeiro grau tenha reconhecido os traumas e autorizado a retirada dos sobrenomes maternos, o pedido de desconstituição da maternidade foi negado sob o fundamento de que a filiação biológica deve permanecer registrada.

TJ mantém condenação de Marcelo Crivella por uso não autorizado de imagem em campanha eleitoral

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve a condenação do senador Marcelo Crivella ao pagamento de R$ 20 mil por danos morais a um estudante que teve sua imagem e seu depoimento utilizados, sem autorização, em propaganda eleitoral. A Corte rejeitou novos recursos da defesa e preservou a sentença que também envolve o Partido Republicanos.

Licenciamento de novos data centers no Ceará reacende debate sobre impactos ambientais e consumo de energia

Dois novos projetos de data centers em Caucaia (CE) estão em fase de licenciamento ambiental e poderão consumir energia equivalente à utilizada por 4,5 milhões de residências, volume superior ao total de domicílios do estado. A dimensão dos empreendimentos intensificou o debate sobre os impactos ambientais, o consumo de água, o licenciamento simplificado e a necessidade de consulta às comunidades potencialmente afetadas.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo