Governo institui grupo de trabalho para analisar falhas processuais e institucionais no Caso Maria da Penha

Data:

Lei Maria da Penha
Créditos: Moussa81 / iStock

O Governo Federal instituiu um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) destinado a estudar as falhas e os desafios enfrentados pelo sistema de justiça brasileiro na apuração e no julgamento da tentativa de feminicídio sofrida por Maria da Penha Maia Fernandes em 1983. A medida foi formalizada por portaria publicada no Diário Oficial da União e integra os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro perante o sistema interamericano de direitos humanos.

Coordenado pelo Ministério das Mulheres, o grupo reúne representantes dos ministérios das Mulheres, da Justiça e Segurança Pública, das Relações Exteriores, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Advocacia-Geral da União (AGU). Também participarão dos trabalhos, na condição de convidados, Maria da Penha Maia Fernandes e representantes de instituições como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM), o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Instituto Maria da Penha.

O principal objetivo do GTI será elaborar um estudo com perspectiva de gênero sobre a condução da persecução penal relacionada ao caso e sobre os procedimentos administrativos que envolveram a tentativa de homicídio. Ao término dos trabalhos, será produzido um relatório nacional destinado a identificar falhas institucionais, registrar avanços promovidos desde então e propor medidas voltadas à reparação simbólica e às garantias de não repetição.

A iniciativa decorre de acordo firmado em 2022 entre o Estado brasileiro, as peticionárias do caso e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Como não seria mais possível responsabilizar juridicamente os agentes envolvidos nas omissões e na demora processual registradas à época, foram pactuadas medidas alternativas para o cumprimento das recomendações internacionais, incluindo a elaboração de estudos, ações educativas e iniciativas de preservação da memória histórica do caso.

O Caso Maria da Penha tornou-se um marco na proteção dos direitos das mulheres no Brasil e no continente. Em 2001, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro pela demora excessiva e pela omissão na condução do processo criminal, reconhecendo a violência doméstica como uma violação de direitos humanos. A decisão internacional impulsionou mudanças legislativas e institucionais que culminaram na criação da Lei Maria da Penha, considerada uma das principais normas de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Durante os trabalhos, o GTI deverá analisar as transformações promovidas pelo Estado brasileiro desde a condenação internacional, bem como identificar medidas capazes de aprimorar o funcionamento do sistema de justiça e fortalecer as políticas públicas de prevenção e enfrentamento à violência de gênero.

Além da elaboração do relatório nacional, o grupo contribuirá para iniciativas voltadas à preservação da memória institucional do caso. Entre elas está a implementação do Memorial da Mulher Brasileira – Casa Maria da Penha, em Fortaleza (CE), que funcionará no imóvel onde Maria da Penha sofreu as tentativas de feminicídio. O espaço será destinado à promoção dos direitos humanos, à educação e à preservação da memória da luta das mulheres por justiça e proteção.

Outra medida relacionada ao legado de Maria da Penha envolve a atuação da Advocacia-Geral da União. Em 2025, a AGU ajuizou ação civil pública para combater a disseminação de informações falsas sobre a trajetória da ativista, buscando preservar a memória histórica e a veracidade dos fatos que marcaram sua luta pelos direitos das mulheres.

Com a criação do GTI, o Governo Federal pretende transformar as lições extraídas de um dos casos mais emblemáticos da história dos direitos humanos no Brasil em instrumentos de aperfeiçoamento institucional, prevenção da violência de gênero e ampliação do acesso das mulheres à justiça.

(Com informações do Portal Gov)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Ministro do STJ suspende julgamento de desapropriação após crítica de advogada a caso considerado “absurdo”

O ministro Afrânio Vilela, do STJ, pediu vista de processo sobre indenização por desapropriação após uma advogada classificar o caso como “absurdo”. A controvérsia envolve a ampliação da área considerada para o cálculo indenizatório, e o julgamento foi suspenso para que o magistrado reexamine os fundamentos de sua posição.

EUA anunciam transmissão ao vivo da execução de militar condenado por ataque em base do Texas

O Pentágono anunciou que a execução de Nidal Malik Hasan, condenado pelo assassinato de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, está prevista para 3 de dezembro de 2026 e poderá ser transmitida ao vivo. O procedimento deverá ocorrer por fuzilamento, mas as autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre a transmissão. O anúncio reacendeu o debate sobre a pena de morte e a publicidade das execuções nos Estados Unidos

TJDFT mantém condenação de concessionária de cemitério por furto de motocicleta

O TJDFT manteve a condenação de uma concessionária de cemitérios pelo furto de uma motocicleta em uma de suas unidades. A 7ª Turma Cível identificou falhas no dever de vigilância, apesar da previsão contratual de segurança armada 24 horas por dia. O tribunal entendeu que a terceirização do serviço não afasta a responsabilidade da concessionária. A indenização de R$ 16.174,00 por danos materiais foi mantida, com correção monetária e juros. A decisão foi unânime.

Justiça concede liminar e permite funcionamento temporário de casa de aposta

Justiça Federal em São Paulo concede liminar que permite à Stake Brazil continuar operando até 25 de outubro de 2026. A decisão considera a necessidade de observar um prazo de transição antes da suspensão das atividades.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo