Inteligência artificial amplia fiscalização de trânsito, mas uso em autuações ainda desafia regulamentação

Data:

Inteligência artificial amplia fiscalização de trânsito, mas uso em autuações ainda desafia regulamentação | JuristasA utilização de sistemas de inteligência artificial para fiscalizar infrações de trânsito tem se expandido em rodovias e centros urbanos brasileiros, impulsionando o debate sobre os limites jurídicos da tecnologia na atividade sancionatória do Estado. Equipamentos dotados de visão computacional já são capazes de identificar condutas como o uso de telefone celular ao volante e a ausência do cinto de segurança, encaminhando as imagens aos órgãos competentes para análise e eventual lavratura de autos de infração.

Em São Paulo, a tecnologia passou a integrar a fiscalização realizada pela Polícia Militar Rodoviária em importantes rodovias estaduais. No Rodoanel Mário Covas, por exemplo, câmeras inteligentes registraram, durante período de testes, milhares de indícios de infrações relacionadas ao uso do celular e ao descumprimento da obrigatoriedade do cinto de segurança por condutores e passageiros. Na Rodovia Raposo Tavares, equipamentos semelhantes passaram a subsidiar a fiscalização após a conclusão dos ajustes operacionais necessários para sua utilização.

Outras concessionárias também vêm incorporando sistemas baseados em inteligência artificial para identificar possíveis irregularidades. Os equipamentos realizam a captura contínua das imagens, selecionam automaticamente situações consideradas suspeitas e encaminham os registros aos órgãos de fiscalização, responsáveis pela análise e pela eventual aplicação das penalidades. A expansão da tecnologia também alcança rodovias federais, como a BR-101, no Espírito Santo, e trechos das BRs 116 e 324, na Bahia, onde o videomonitoramento já integra as ações de fiscalização.

Além da repressão às infrações, a inteligência artificial vem sendo empregada na gestão da mobilidade urbana. Diversas cidades brasileiras adotaram sistemas inteligentes de controle semafórico capazes de ajustar automaticamente os tempos dos sinais de trânsito conforme o fluxo de veículos, buscando aumentar a fluidez viária e reduzir congestionamentos.

Sob o aspecto tecnológico, os sistemas utilizados na fiscalização empregam técnicas de aprendizado de máquina e visão computacional, permitindo que algoritmos sejam treinados para reconhecer padrões previamente identificados em grandes bases de dados. Entretanto, especialistas alertam que esses modelos operam com base em probabilidades estatísticas e, por essa razão, permanecem sujeitos a erros de classificação, tanto na forma de falsos positivos — quando uma infração é apontada sem que tenha ocorrido — quanto de falsos negativos, quando a conduta infracional deixa de ser identificada.

Diante dessas limitações, pesquisadores defendem que a inteligência artificial seja utilizada como ferramenta de apoio à atividade fiscalizatória, e não como substituta da análise humana. A validação das imagens por agentes públicos constitui mecanismo relevante para reduzir o risco de autuações indevidas e assegurar maior confiabilidade ao procedimento administrativo.

No plano jurídico, a utilização da inteligência artificial na fiscalização de trânsito ainda carece de disciplina normativa específica. Atualmente, sua aplicação ocorre com fundamento nas regras já existentes sobre videomonitoramento e sistemas automáticos não metrológicos, previstas nas Resoluções nº 909/2022 e nº 920 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

Segundo especialistas em Direito de Trânsito, quando a fiscalização ocorre por videomonitoramento, a responsabilidade pela autuação permanece atribuída ao agente da autoridade de trânsito, que deve analisar efetivamente as imagens e assumir a responsabilidade pela lavratura do auto de infração. Já nos sistemas automáticos não metrológicos, a utilização depende da observância dos requisitos técnicos estabelecidos pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para cada modalidade de infração.

Nesse contexto, a inteligência artificial atua como instrumento auxiliar da fiscalização, sem afastar a necessidade de observância do devido processo legal, da motivação dos atos administrativos e do direito de defesa dos condutores. Caso o motorista considere indevida a autuação, permanece assegurada a possibilidade de impugnação administrativa, inclusive para questionar a confiabilidade das imagens, o funcionamento do equipamento, a regularidade da fiscalização e o cumprimento das exigências legais e regulamentares aplicáveis.

A crescente incorporação da inteligência artificial à fiscalização de trânsito evidencia o potencial da tecnologia para aumentar a eficiência da atuação estatal. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de aperfeiçoamento do marco regulatório, de forma a conciliar inovação tecnológica, segurança jurídica, transparência administrativa e proteção aos direitos fundamentais dos cidadãos.

(Com informações da Gazeta do Povo por Leonardo Desideri)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

New Balance processa Decathlon nos EUA por suposta violação de marca em logotipo da Kiprun

A New Balance processou a Decathlon nos Estados Unidos, alegando que o logotipo utilizado pela marca esportiva Kiprun apresenta semelhança com seu tradicional símbolo em formato de “N”. A fabricante pede a retirada dos produtos do mercado, a destruição dos itens com o símbolo e indenização. A Decathlon contesta a acusação e afirma que o desenho representa a letra “K”. O processo tramita no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts.

IA amplia preocupação com empregos e já afeta a entrada de jovens no mercado de trabalho

Pesquisas recentes indicam que a inteligência artificial já produz efeitos perceptíveis sobre o mercado de trabalho, especialmente nas oportunidades destinadas a profissionais jovens em ocupações mais expostas à automação. Estudos também apontam crescimento do uso de IA generativa nas empresas, inclusive sem conhecimento dos empregadores, levantando questões relacionadas à governança, segurança da informação, proteção de dados e relações trabalhistas. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que os dados disponíveis ainda não comprovam uma substituição generalizada de trabalhadores pela tecnologia.

Nelson Wilians transferiu R$ 6,6 milhões para empresa de herdeiro da Casas Bahia, aponta Coaf

Relatório do Coaf que embasou a Operação Distrato registra 15 transferências realizadas por Nelson Wilians, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, totalizando R$ 6,6 milhões destinados à Icon Properties, empresa ligada a Michael Klein. A movimentação é mencionada no contexto de investigação do Ministério Público de São Paulo sobre supostas fraudes envolvendo créditos de ICMS. Wilians afirma que as operações são lícitas e não têm relação com os fatos investigados. Michael Klein não se manifestou, enquanto a Casas Bahia informou ter criado um comitê independente para apurar o caso.

Candidata recorre à Justiça após desclassificação de concurso por uso de medicamento hormonal

Candidata ao concurso da Polícia Penal de Minas Gerais foi considerada inapta na avaliação médica após apresentar documentação indicando histórico de câncer de mama e uso contínuo de tamoxifeno. Ela afirma que exames recentes não apontam atividade da doença e questiona judicialmente a desclassificação, invocando o entendimento do STF no Tema 1.015. Os pedidos de liminar e o recurso apresentado pela candidata foram negados, enquanto o processo principal continua em tramitação.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo