
O advogado e líder religioso Iannick Sucupira Curvelo, de 35 anos, foi preso pela Polícia Civil de Sergipe na quarta-feira (19) sob suspeita de interferir nas investigações que apuram denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça após surgirem indícios de que o investigado teria tentado entrar em contato com vítimas e testemunhas durante a apuração.
Iannick atuava na Igreja Metodista e, até renunciar ao cargo um dia antes da prisão, representava a região Nordeste na Coordenação Geral de Ação Missionária da instituição. Segundo os relatos que estão sendo investigados, parte dos supostos crimes teria ocorrido em ambientes relacionados à atividade religiosa.
O caso é conduzido pela Delegacia Especializada de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas. De acordo com a Polícia Civil, ao menos dez possíveis vítimas já foram identificadas e ouvidas, sendo a maioria delas parentes do investigado. Os relatos indicam que os crimes sob apuração poderiam ocorrer desde 2014.
A ordem de prisão foi expedida pela juíza Heloísa de Oliveira Castro, da 6ª Vara Criminal de Aracaju, no dia 7 de agosto. A magistrada também autorizou buscas na residência e no escritório do investigado para verificar a existência de eventuais materiais relacionados a crimes sexuais envolvendo menores de 18 anos.
Iannick foi preso quando compareceu para prestar depoimento no Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis. Por ser advogado, ele foi encaminhado a uma unidade prisional com cela especial e permanece detido no Presídio Militar de Aracaju.
A investigação apura suspeitas de estupro e estupro de vulnerável, conforme a idade e as circunstâncias relatadas pelas possíveis vítimas. A defesa de Iannick afirma que a prisão preventiva seria desnecessária, argumentando que ele teria se disposto a cumprir medidas cautelares. Em nota, os advogados afirmaram que o investigado está colaborando com o esclarecimento dos fatos e entregou voluntariamente o celular e o passaporte às autoridades.
A defesa também pediu cautela na divulgação das informações, ressaltando que o caso tramita sob segredo de Justiça e que eventuais acusações devem ser analisadas no processo. A Ordem dos Advogados do Brasil em Sergipe informou que instaurou processo ético-disciplinar contra o profissional e determinou a suspensão cautelar do exercício da advocacia diante da gravidade das acusações.
A Igreja Metodista foi procurada sobre a prisão e, até a publicação das informações utilizadas nesta reportagem, não havia apresentado manifestação.
Segundo os depoimentos reunidos na investigação, Iannick exercia diferentes funções na Igreja Metodista em Aracaju, incluindo a liderança de grupos de discipulado voltados a crianças e adolescentes. As atividades eram realizadas em templos religiosos, residências de membros e no apartamento do investigado.
Os relatos apontam que ele teria se aproximado de crianças e adolescentes por meio de atividades religiosas, ofertas de presentes, refeições e promessas de vantagens. Algumas possíveis vítimas afirmaram que teriam sido convidadas para a residência do investigado, onde teriam ocorrido comportamentos de natureza sexual.
Um dos depoimentos considerados relevantes pela investigação foi prestado por uma vítima que afirmou ter sofrido abusos desde a infância. Segundo o relato, o investigado teria exigido segredo e utilizado sua posição religiosa e a relação de confiança estabelecida com a vítima para manter o silêncio.
Outro depoimento relata que uma adolescente teria sido abordada pelo investigado dentro de um templo religioso. Segundo o relato apresentado à polícia, ele teria solicitado o contato da jovem em uma rede social e feito uma proposta de relacionamento sob a justificativa de atividades de discipulado.
A investigação também levou em consideração informações fornecidas pelo síndico do condomínio onde o advogado morava. Ele teria relatado a presença frequente de adolescentes no apartamento do investigado por períodos curtos. Segundo a apuração, algumas pessoas que não residiam no prédio teriam sido cadastradas no sistema de controle de acesso do condomínio.
A investigação também reúne relatos de familiares do advogado. Um dos denunciantes, atualmente maior de idade, afirmou que os supostos abusos teriam começado quando ele tinha 12 anos. O depoimento menciona episódios de natureza sexual e situações de exposição da intimidade. Segundo a polícia, esse denunciante apresentou elementos digitais que poderão ser analisados na investigação, incluindo registros de chamadas de vídeo e conversas mantidas por aplicativos de mensagens.
Outros familiares também relataram episódios que teriam ocorrido durante a infância e a adolescência. Os depoimentos descrevem diferentes situações de natureza sexual e alegam que o investigado teria utilizado pressão psicológica, manipulação ou promessas para se aproximar das possíveis vítimas.
A polícia ainda apura relatos segundo os quais o investigado teria oferecido vantagens financeiras em troca de atos de natureza sexual.
A prisão preventiva foi fundamentada, entre outros elementos, na suspeita de interferência na apuração. Segundo a delegada Gabriela Sá Campos, a investigação reuniu indícios de que o suspeito teria procurado uma testemunha e uma possível vítima nos dias anteriores ao pedido de prisão, inclusive participando de uma chamada em grupo.
O Ministério Público apresentou parecer favorável à prisão. O órgão apontou a existência de indícios considerados relevantes de autoria e também a necessidade de preservar a integridade das possíveis vítimas e a regularidade da investigação.
A polícia informou ainda que investiga indícios relacionados ao possível armazenamento e compartilhamento de materiais de abuso sexual envolvendo menores. Essa hipótese deverá ser apurada durante o curso das investigações.
Na decisão que determinou a prisão, a magistrada considerou que a medida seria necessária, naquele momento, para preservar a integridade das possíveis vítimas e evitar interferências na produção das provas. Como o caso ainda está em fase de investigação, as acusações deverão ser submetidas ao devido processo legal, com garantia do contraditório e da ampla defesa.
(Com informações do UOL por Carlos Madeiro)
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