Polícia Civil identifica estrutura de organização criminosa em redes de exploração sexual infantil na internet

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Polícia Civil identifica estrutura de organização criminosa em redes de exploração sexual infantil na internet | JuristasInvestigações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo apontam que grupos criminosos voltados ao aliciamento, à exploração sexual e à extorsão de crianças e adolescentes na internet operam com estrutura hierarquizada e divisão de funções semelhante à de organizações criminosas tradicionais. Segundo as autoridades, essas redes possuem comando definido, milhares de integrantes distribuídos em diferentes plataformas digitais e atuam de forma coordenada em diversos estados brasileiros.

De acordo com a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, chefe do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (NOAD), a organização dos grupos apresenta características típicas de associações criminosas de elevada complexidade, com lideranças, administradores, moderadores e integrantes responsáveis por funções específicas. Em razão dessa estrutura, os casos envolvendo investigados maiores de idade são processados perante varas especializadas em lavagem de dinheiro e organizações criminosas.

As investigações demonstram que o recrutamento das vítimas normalmente ocorre em plataformas de jogos on-line, como Roblox, Minecraft e Free Fire, além de redes sociais e aplicativos de mensagens. O aliciamento inicia-se com a conquista da confiança da criança ou do adolescente, muitas vezes por meio de falsas relações afetivas, evoluindo para a obtenção de imagens íntimas e informações pessoais.

Posteriormente, as vítimas passam a ser submetidas à prática conhecida como sextorsão, modalidade de extorsão em que criminosos utilizam imagens ou informações íntimas para constranger a vítima, exigindo a produção de novos conteúdos sob ameaça de divulgação do material já obtido.

Segundo os inquéritos policiais, a escalada criminosa frequentemente evolui para condutas de extrema gravidade, incluindo automutilação induzida, exploração sexual infantil, violência psicológica e produção de conteúdos ilícitos. Há registros de adolescentes coagidos a praticar lesões contra o próprio corpo durante transmissões ao vivo acompanhadas pelos integrantes das comunidades criminosas.

As apurações identificaram vítimas em diferentes unidades da Federação, entre elas Mato Grosso, Goiás e Piauí, indicando que a atuação dessas organizações possui abrangência nacional e independe da localização geográfica das vítimas.

Conforme a Polícia Civil, o Discord é utilizado como ambiente operacional para administração dos grupos e comunicação cotidiana, enquanto plataformas como Telegram e Signal são empregadas para comunicação criptografada entre lideranças. Já o armazenamento e a comercialização do material ilícito ocorrem, em grande parte, em ambientes da chamada dark web.

Além da exploração sexual, as investigações apontam a existência de sofisticada estrutura financeira destinada à monetização das atividades criminosas. Segundo especialistas, as organizações utilizam moedas virtuais de jogos eletrônicos, criptomoedas, plataformas de pagamento digital, transações peer-to-peer (P2P) e serviços sediados em paraísos fiscais para ocultar valores obtidos com a comercialização de conteúdos ilícitos e dificultar o rastreamento pelas autoridades.

O advogado criminalista Hélio Ramos destaca que a movimentação financeira envolve não apenas criptomoedas tradicionais, mas também ativos digitais vinculados a jogos eletrônicos, utilizados como meio de negociação em comunidades fechadas e posteriormente convertidos em recursos financeiros.

Outro mecanismo frequentemente empregado pelas organizações é o doxxing, prática consistente na divulgação ou utilização indevida de dados pessoais e familiares das vítimas como forma de intimidação e manutenção da submissão psicológica.

As autoridades também alertam para os desafios enfrentados na investigação desse tipo de criminalidade, especialmente em razão da criptografia das plataformas, da atuação transnacional das organizações e da necessidade de equipes especializadas em inteligência digital.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública reforçam a gravidade do cenário ao apontarem crescimento expressivo dos registros relacionados à produção e à distribuição de material de exploração sexual infantojuvenil nos últimos anos, bem como o aumento dos casos de violência praticada contra crianças e adolescentes em ambientes digitais.

Segundo a Polícia Civil de São Paulo, o NOAD já identificou mais de 1.900 alvos de investigação e participou de mais de 600 prisões relacionadas à criminalidade digital. Para a corporação, o perfil desses grupos evidencia que não se trata de ações isoladas praticadas por indivíduos, mas de organizações estruturadas, com divisão de tarefas, hierarquia e elevado grau de especialização tecnológica.

(Com informações da Folha de São Paulo por Bárbara Sá)

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