STJ: ação contra administrador por ilícito exige anulação prévia da aprovação de contas

Data:

Escritório de Advocacia
Créditos: VitalikRadko / Depositphotos

Para que uma empresa processe um administrador por prejuízos decorrentes de sua gestão — ainda que por suposta prática de ilícito, como a chamada corrupção corporativa — é necessário, antes, anular as deliberações da assembleia-geral que aprovaram suas contas.

Esse foi o entendimento firmado pela 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que manteve decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) e rejeitou o recurso de um grupo empresarial que buscava responsabilizar ex-diretores.

A controvérsia envolveu a interpretação de dois dispositivos da Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/1976).

O artigo 134, §3º estabelece que a aprovação das contas pela assembleia-geral sem ressalvas libera os administradores de responsabilidade — o chamado quitus. Já o artigo 159 permite que a própria assembleia autorize a empresa a processar seus administradores por eventuais prejuízos causados.

Diante desse aparente conflito, a jurisprudência do STJ consolidou o entendimento de que uma ação de responsabilidade civil contra administradores só é cabível se a aprovação das contas for previamente anulada.

Corrupção corporativa não afasta exigência

No caso julgado, a empresa alegou que ex-diretores teriam recebido cerca de R$ 98 milhões por meio de uma intermediária, em contratos lesivos ao patrimônio da companhia. Mesmo assim, as contas foram aprovadas em assembleia.

O grupo empresarial sustentava que a prática de corrupção corporativa — embora não tipificada como crime no Brasil — seria suficiente para afastar a exigência da anulação prévia das contas.

A relatora do recurso, ministra Nancy Andrighi, defendeu a possibilidade de distinguir a situação, entendendo que atos ilícitos não poderiam ser abrangidos pela aprovação das contas.

“A corrupção corporativa é estranha à gestão empresarial e não pode ser exonerada pela assembleia. Do contrário, estaríamos blindando o administrador que age de forma fraudulenta, violando deveres de diligência, lealdade e informação”, argumentou.

Para a ministra, aplicar o quitus a esse tipo de conduta equivaleria a premiar gestores que se beneficiam indevidamente da empresa. Ela foi acompanhada pelo ministro Moura Ribeiro.

Maioria mantém necessidade de anulação

Prevaleceu, no entanto, o voto divergente do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, segundo o qual a aprovação das contas pela assembleia tem efeito exoneratório amplo e abrange todos os atos de gestão.

“A interpretação sistemática da Lei das S.A. conduz à conclusão de que a aprovação das contas gera o quitus, sem distinção entre atos regulares ou irregulares. Alterar isso traria insegurança jurídica e imprevisibilidade”, afirmou o ministro.

Acompanharam o voto divergente os ministros Humberto Martins e Daniela Teixeira, formando maioria de três votos a dois.

Com isso, a 3ª Turma manteve a decisão do TJSP e extinguiu a ação movida contra os ex-diretores, reafirmando que a responsabilização de administradores depende, necessariamente, da anulação da aprovação das contas.

Processo: REsp 2.207.934

(Com informações do ConJur)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Justiça dos EUA suspende fusão bilionária entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação antitruste

A Justiça dos Estados Unidos suspendeu a fusão de aproximadamente US$ 110 bilhões entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação movida por 12 estados, liderados pela Califórnia. Os autores sustentam que a operação viola a legislação antitruste e poderá reduzir significativamente a concorrência nos mercados de cinema, televisão e entretenimento. O caso ainda será analisado pela Justiça, enquanto a transação também aguarda aprovação de reguladores internacionais.

Eduardo Bolsonaro obtém green card nos EUA após condenação pelo STF

Eduardo Bolsonaro recebeu o green card dos Estados Unidos, documento que lhe garante residência permanente no país. A concessão ocorre após sua condenação pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. O documento amplia sua estabilidade migratória nos EUA, embora não lhe confira direitos políticos, como o voto nas eleições norte-americanas.

Justiça mantém justa causa de trabalhadora que gravou vídeos no TikTok com uniforme e críticas à empresa

A Justiça do Trabalho manteve a demissão por justa causa de uma trabalhadora que gravou vídeos para o TikTok nas dependências da empresa, utilizando uniforme com identificação da empregadora e divulgando informações consideradas falsas sobre o ambiente de trabalho. A decisão concluiu que a conduta violou normas internas, comprometeu a imagem da empresa e configurou mau procedimento, indisciplina e ato lesivo à honra do empregador, nos termos da CLT.

Copa do Mundo impulsiona apostas esportivas, mas setor enfrenta pressão por regras mais rígidas sobre publicidade

A Copa do Mundo impulsionou o mercado brasileiro de apostas esportivas, registrando aumento expressivo no número de apostas e no volume de transações. Apesar do crescimento, o setor não atingiu as projeções esperadas e passou a enfrentar maior pressão por regras mais rígidas para a publicidade das bets. O governo federal reforçou normas sobre propaganda, enquanto órgãos públicos e entidades civis discutem novas medidas para ampliar a proteção dos consumidores.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo