CNJ mantém demissão de ex-juíza que repetiu decisões, mesmo após alegar autismo e burnout

Data:

Juíza é investigada
Créditos: Andrey Popov | iStock

A conselheira Daniela Pereira Madeira, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), negou o pedido liminar apresentado pela ex-juíza Angélica Chamon Layoun para suspender sua demissão e determinar a reintegração ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS). A magistrada havia sido afastada do cargo após acusações de proferir decisões padronizadas de forma reiterada e de manipular indicadores de produtividade.

Angélica apresentou laudos médicos que apontam diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 e síndrome de burnout, alegando que essas condições teriam influenciado sua atuação funcional. Ainda assim, o CNJ entendeu que, embora os diagnósticos possam ser analisados no julgamento do mérito, não justificam, neste momento, a concessão da medida urgente para reversão imediata da penalidade.

Entenda o caso

A apuração teve início em julho de 2023, sob sigilo, a partir de denúncias relacionadas à atuação da então juíza na 2ª Vara Cível da comarca de Cachoeira do Sul (RS). Em setembro do mesmo ano, ela foi afastada cautelarmente, e o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) foi posteriormente julgado pelo Órgão Especial do TJ/RS.

Segundo as conclusões do procedimento, a magistrada teria utilizado um mesmo modelo de sentença em cerca de 2 mil processos, sem análise individualizada dos casos. Também foi apontado que ela desarquivava processos já julgados para proferir novos despachos, com o objetivo de elevar artificialmente seus índices de produtividade. Após a publicação da decisão no Diário da Justiça, Angélica foi oficialmente demitida.

Argumentos da defesa

A defesa sustentou que a penalidade aplicada foi excessivamente rigorosa e que o PAD apresentou falhas processuais. De acordo com os advogados, por estar em estágio probatório, a ex-juíza não teve acesso a instâncias recursais internas no tribunal, motivo pelo qual foi apresentado Pedido de Revisão Disciplinar ao CNJ.

Os defensores também alegaram tratamento desigual durante a apuração, com deferimento de diligências que reforçariam acusações e indeferimento de pedidos que poderiam favorecer a magistrada. Em recurso, destacaram que avaliações médicas realizadas entre setembro e novembro de 2025 indicaram TEA nível 1, altas habilidades e esgotamento profissional, condições que, segundo a defesa, impactam a comunicação, a organização e a resposta a situações de pressão.

Além disso, questionaram a confiabilidade dos dados de produtividade utilizados no PAD e afirmaram que pedidos de esclarecimento técnico e produção de provas foram rejeitados de forma genérica. Ao final, requereram a reabertura da fase probatória, a suspensão dos efeitos da demissão e a consideração do diagnóstico médico na análise das imputações.

Decisão do CNJ

Ao analisar o pedido, a conselheira Daniela Pereira Madeira entendeu que não estavam presentes os requisitos para a concessão da liminar. Segundo registrou, os diagnósticos apresentados “podem, em tese, repercutir na apreciação do mérito” da revisão disciplinar, mas não justificam a reintegração imediata da ex-juíza antes do julgamento definitivo.

Em nota, a defesa afirmou que a magistrada foi designada para uma vara que estava há anos sem juiz titular, com grande acúmulo de processos e ausência de rotinas estruturadas. Segundo os advogados, ela buscou implementar melhorias administrativas e reorganizar o fluxo processual, enfrentando resistências internas que teriam contribuído para a instauração do PAD.

A defesa também alegou que Angélica sofreu discriminação velada por ser mulher, mãe e oriunda de outro estado. À época dos fatos, ela cuidava de uma filha de três anos diagnosticada com TEA, circunstância que, segundo os advogados, dificultava ainda mais a conciliação entre a atividade jurisdicional e a maternidade.

(Com informações do Migalhas)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Fachin anuncia projeto de lei para regulamentar remuneração de magistrados

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, anunciou que pretende concluir até o final de 2026 uma minuta de projeto de lei federal para regulamentar a remuneração dos magistrados. A proposta integra uma agenda mais ampla de defesa da integridade, transparência e controle dos gastos públicos. Fachin também apresentou ao CNJ medidas para prevenir conflitos de interesse na magistratura.

Gusttavo Lima é responsabilizado por transtornos causados por número em música

Gusttavo Lima foi condenado a pagar cerca de R$ 149 mil a um empresário que afirmou ter recebido milhares de mensagens e ligações após seu número de telefone ser mencionado na música “Bloqueado”. A Justiça entendeu que a divulgação da canção contribuiu para os transtornos sofridos pelo proprietário do número. A decisão ainda não transitou em julgado e o pagamento foi determinado provisoriamente.

Estudo aponta falhas estruturais no combate à violência contra a mulher no Brasil

Estudo da Rede Nacional de Controle Externo pela Proteção das Mulheres, com dados dos 27 tribunais de contas brasileiros, identificou falhas de orçamento, planejamento, equipes e integração entre órgãos responsáveis pelo enfrentamento à violência contra a mulher. Auditorias apontaram estruturas incompletas, baixa execução orçamentária e ausência de planos formais em diversos municípios.

Executivos do Goldman Sachs são alvo de investigação por suposta fraude societária

A Polícia Civil de São Paulo indiciou dois executivos do Goldman Sachs por suspeita de fraude e abuso na administração de sociedade por ações em investigação envolvendo a estrutura societária de fundos ligados à Oncoclínicas. A apuração busca esclarecer se informações sobre a participação da Centaurus Capital foram omitidas ou apresentadas de forma irregular para evitar uma oferta pública de aquisição de ações. O Goldman Sachs nega irregularidades, enquanto a CVM já havia concluído que a Centaurus não estava obrigada a realizar a OPA.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo