Gilmar propõe presunção de Justiça gratuita para quem recebe até R$ 5 mil; julgamento é suspenso

Data:

Justiça Gratuita
Créditos: Chalirmpoj Pimpisarn / iStock

Pessoas que recebem até R$ 5 mil por mês devem ter direito à Justiça gratuita de forma presumida em todos os ramos do Judiciário. Acima desse valor, a insuficiência de recursos precisaria ser comprovada. Essa foi a proposta apresentada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em voto proferido nesta sexta-feira (28/11).

O julgamento virtual, que discute a gratuidade na Justiça do Trabalho, foi retomado às 11h, mas acabou suspenso minutos depois devido a um pedido de vista do ministro Cristiano Zanin.

Divergências no colegiado

O relator da ação, ministro Luiz Edson Fachin, já havia defendido, em junho, que a autodeclaração de pobreza é meio válido para comprovar a insuficiência financeira na Justiça do Trabalho. O caso examinado originalmente tratava justamente da possibilidade de concessão da gratuidade com base apenas nessa autodeclaração.

Gilmar, porém, propôs ampliar o debate para todos os ramos do Judiciário e sugeriu que o entendimento só passe a valer para ações ajuizadas após a publicação da ata do julgamento. Ele ressaltou que sua proposta é provisória, enquanto o Legislativo não define critérios mais objetivos para aferir a insuficiência econômica.

Critério de renda e atualização

O ministro usou como referência a Lei 15.270/2025 — sancionada na véspera — que isentou do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil. Segundo seu voto, o parâmetro deve ser atualizado sempre que houver mudanças na tabela do IR. Caso não haja atualização anual, o valor deve ser corrigido pelo IPCA.

Isonomia entre jurisdicionados

Gilmar apontou que hoje há tratamentos diferentes para pessoas em condições econômicas semelhantes. Na Justiça do Trabalho, presume-se a hipossuficiência para quem ganha até 40% do teto do INSS, enquanto nos demais ramos a autodeclaração basta. Para ele, essa discrepância viola a isonomia:

“A ausência de critérios equivalentes fora da Justiça do Trabalho acaba por privilegiar arbitrariamente determinados litigantes, enquanto impõe ônus a outros”, afirmou.

O ministro também destacou que a regra estabelecida pela reforma trabalhista de 2017 perdeu aderência à realidade econômica. À época, 40% do teto previdenciário equivalia a cerca de R$ 2,2 mil; hoje, representa aproximadamente R$ 3,3 mil.

Proposta de unificação

Diante disso, Gilmar defendeu a adoção de um critério único e alinhado à nova política de isenção do IR, entendendo que esse parâmetro representa de forma atualizada o limite de renda compatível com a insuficiência de recursos. Ele também lembrou que pessoas atendidas pela Defensoria Pública já possuem presunção de insuficiência — com critérios geralmente mais restritivos.

Se seu voto prevalecer, as teses firmadas pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Tribunal Superior do Trabalho sobre o tema serão superadas.

Contexto da ação

A ação foi proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif), que sustenta que a Justiça gratuita só deve ser concedida a quem comprovar renda de até 40% do teto do INSS. A reforma trabalhista adotou esse critério, exigindo comprovação da insuficiência.

O debate no STF gira em torno da validade da autodeclaração de hipossuficiência na Justiça do Trabalho. Pelo Código de Processo Civil, essa declaração é presumida verdadeira. A Consif, porém, discorda. Já a Súmula 463 do TST reforça que a autodeclaração é suficiente — entendimento reafirmado pelo tribunal no final do ano passado.

Voto do relator

Fachin considerou constitucionais as regras da reforma, mas defendeu que a diretriz do CPC se aplica à Justiça do Trabalho. Segundo ele, a reforma definiu um critério salarial, mas não proibiu a autodeclaração.

O relator destacou que declarações falsas podem gerar responsabilização, inclusive criminal, e que a parte contrária pode contestar a alegação de insuficiência. Ele também lembrou que a Justiça gratuita não afasta a obrigação de pagar custas caso a pessoa deixe de ser hipossuficiente no curso do processo.

(Com informações do ConJur)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Bruno Dantas formaliza renúncia ao cargo de ministro do TCU e abre caminho para indicação de Rodrigo Pacheco

O ministro Bruno Dantas formalizou sua renúncia ao cargo no Tribunal de Contas da União (TCU), com saída prevista para 9 de setembro. A vaga, destinada à indicação do Senado Federal, deverá ser disputada politicamente e o nome de Rodrigo Pacheco ganhou força para assumir o posto. A mudança ocorre em meio à reaproximação entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e às articulações do Congresso antes das eleições de 2026.

Governo cria regras para combater cambismo digital e ampliar proteção de consumidores em eventos

O governo federal regulamentou a venda, a revenda e a transferência de ingressos pela internet com medidas destinadas a combater o cambismo digital, ampliar a transparência e proteger direitos dos consumidores. A regulamentação estabelece regras para filas, meia-entrada, taxas, revenda, transferência e reembolso. Outro decreto determina a disponibilização gratuita de água potável em eventos culturais, com regras específicas para eventos com mais de mil pessoas.

Tribunal do Júri condena corintiano por matar esposa palmeirense após discussão

O Tribunal do Júri condenou o empresário Leonardo Souza Ceschini a 13 anos e 24 dias de prisão, em regime fechado, pela morte da esposa, Érica Fernandes Alves Ceschini, ocorrida em 2021. A vítima foi atingida por oito golpes de faca após uma discussão relacionada à rivalidade entre Corinthians e Palmeiras. Os jurados reconheceram o feminicídio, o emprego de meio cruel e o aumento de pena pelo fato de o crime ter ocorrido na presença dos filhos do casal. A defesa informou que pretende recorrer da decisão.

Júri condena homem acusado de orquestrar assassinato do rapper Tupac Shakur

Resumo: Duane “Keffe D” Davis, de 63 anos, foi considerado culpado por um júri de Las Vegas por participação no assassinato do rapper Tupac Shakur, ocorrido em 1996. A acusação sustentou que Davis organizou a ação e estava no veículo de onde partiram os disparos, enquanto a defesa questionou a existência de provas independentes. Davis poderá ser condenado à prisão perpétua, e o caso ainda poderá ser objeto de recursos

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo